quarta-feira, 11 de maio de 2011

P O E M A

Com o poeta Oliveira de Panelas


T A R D E
Valdez

Em mim, morria a tarde e, a tardar, morria
A dor profunda que meu peito entranha.
E nesse ocaso, que o temor assanha,
Eu, vivo e morto, minha dor sentia.

Quantas tristezas a saudade amanha,
Rotundas bagas que dos olhos saltam;
Unidas, prestas, o temblar exaltam...
Gritando, tensas, nessa tarde estranha.

Mantissas cegas, teoremas d´alma,
Vão me quebrando, me roubando a calma;
Pensando em fugas, fugas assuntando.

A dor... na tarde que, a morrer, se tarda:
Promíscuas mágoas, no seu colo, guarda;
Intensas dores se me vão tardando!...


terça-feira, 10 de maio de 2011

O Ovilejo

    
     O Ovilejo é um tipo de poema muito usado pelos renascentistas. De origem espanhola, alterna versos de sete e de três sílabas, com rimas emparelhadas. Termina com uma quadra cujo último verso recolhe palavras dos três versos de três sílabas. Seu esquema rimático é:       AABBCCDCDC. Vai, abaixo, um exemplo:

BEIJO TRANSGRESSOR
Valdez

Minha boca tem desejo
Do teu beijo.
Musa... meu sonho tenaz,
E fugaz,
Flora na senda do amor
Transgressor...
Espero que dê guarida
Ao meu canto de louvor...
Quero teu beijo querida:
Beijo fugaz, transgressor!

sábado, 7 de maio de 2011

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS


     Criada a Academia Brasileira de Letras, sob a tutela austera de Machado de Assis, mudam-se os costumes, entre literatos, no Brasil. A Academia veta os comportamentos libertinos e boêmios. Para Machado a Academia devia ser, também, uma casa de boa companhia, e o critério das boas maneiras, da absoluta respeitabilidade pessoal não podia ser abstraído dos requisitos essenciais para que ali se pudesse entrar.

     A reação imediata do cearense Paula Nei (1858-1897), poeta e boêmio inveterado, por ter sido excluído do número de quarenta imortais fundadores da Academia, foi a de criar a Academia Livre de Letras, onde pespontariam alguns boêmios.

     Ficaram fora da ABL, por serem boêmios, figuras renomadas como B. Lopes (1859-1916), Emílio de Menezes (1866-1918) e Lima Barreto (1881-1922). Lima Barreto, em carta a Monteiro Lobato (1882-1948 - ver Papeando 52), explica o insucesso: Sei bem que não dou para a Academia e a reputação de minha vida urbana não se coaduna com a sua respeitabilidade. De modo próprio, até deixei de freqüentar casas de mais ou menos cerimônia - como é que podia pretender a Academia? Decerto não...

   Coisas da vida, direis. Logo Lima Barreto a quem, profeticamente, Lobato dirá: Mais tarde será nos teus livros, e alguns de Machado de Assis, mas sobretudo nos teus, que os pósteros poderão sentir o Rio atual com todas as suas mazelas... Paisagem e almas, todas, está tudo ali.

   Quem nunca desistiu de entrar para a ABL foi Emílio de Menezes, paranaense de Curitiba. Em 15 de agosto de 1914, e somente após a morte de Machado de Assis, conseguiu ser eleito para a vaga de Salvador de Mendonça (1841-1913).



   Informa Medeiros e Albuquerque (1867-1934), pernambucano de Recife, então presidente da ABL, que a eleição de Emílio de Menezes se deu por medo dos acadêmicos, pois muitos receavam as sátiras de Emílio, que faziam todo mundo rir e eram “modelos de perversidade.



REQUERIMENTO ENGROSSATIVO MAS SINCERO - HINO À DENTADA
Emílio de Menezes

“Lebrão! Tu sabes que a Confeitaria
Colombo é verdadeira sucursal
Da nossa muito douta Academia
Mas sem cheiro de empréstimo oficial.

Cerca-te sempre a grande simpatia
De todo literato honesto e leal,
E tu te vais tornando dia a dia
O Mecenas de todo esse pessoal..

Nisto mostras que és homem de talento,
Que não cuidas somente de pastéis
Nem de lucros tirar cento por cento.

Atende, pois, a um dos amigos fiéis,
Que está passando por um mau momento
E anda doido a cavar trinta mil-réis!...”