segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Versos Mordazes

     Geralmente são versos picantes, desaforados. O chiste e a ironia mais das vezes como desnudantes da hipocrisia e do preconceito. Raro o poeta que não se tenha utilizado da pilhéria e do gracejo. No Papeando 77 tivemos uma amostra da espécie, no Soneto Futurista, de Carlos de Laet. Hoje apresentamos Argumento de Defesa, de Bastos Tigre (1882-1957). Por oportuno, de acrescentar que Bastos Tigre nasceu em Recife-PE. Jornalista, poeta, compositor, teatrólogo, humorista e publicitário. É dele o slogan da Bayer que correu mundo: “Se é Bayer é bom”. O Dia do Bibliotecário foi instituído em sua homenagem, vez que é considerado como o primeiro bibliotecário, por concurso (1915 - Museu Nacional), do Brasil.

ARGUMENTO DE DEFESA
Bastos Tigre

Disse alguém, por maldade ou por intriga,
Que eu de Vossa Excelência mal dissera:
Que tinha amantes, que era “fácil”, que era
Da virtude doméstica, inimiga.

Maldito seja o cérebro que gera
Infâmias tais que, em cólera, maldigo!
Se eu disse tal, que tenha por castigo
O beijo de uma sogra ou de outra fera!

Ponho a mão espalmada na consciência
E ela, senhora, impávida, protesta
Contra essa intriga da maledicência!

Indague a amigos meus: qualquer atesta
Que eu acho e sempre achei Vossa Excelência
Feia demais para não ser honesta...

   Alfim, vai um soneto meu. Nunca neguei que tenho queda pelas zanolhas, que o estrabismo é um velho recurso de sedução, discretamente utilizado por Vênus.

DOCE ZANOLHA
Valdez

Passaram tantas, frente à minha porta:
Louras, morenas, gordas, magricelas...
Lindas mulheres! Outras... não tão belas,
Mas todas fêmeas, saias, é o que importa.

Tantas Marias... Santas, pecadoras...
Ah! que saudades da Zanolha tenho!
Seu gosto doce como mel de engenho;
Feia, baixinha, formas sedutoras.

Um sol denso, fugaz, uma aquarela
Que compus na memória, sobre tela.
São lembranças. Difícil esquecê-las:

A zanolha gemendo seus abrolhos...
Um dos olhos postado nos meus olhos,
E o outro vagueando nas estrelas...


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

POEMA

DESCRIÇÃO DO QUARTO DO AUTOR
Xavier da Cunha



De escarros a parede matizada,
Sobre a mesa bastante papel velho,
Noutra parte sem aço antigo espelho
E um tinteiro que só vê tinta aguada;

Do teto imensa teia pendurada,
Duas cadeiras já sem aparelho,
Imundice que dá pelo joelho
E a pequena janela esburacada;

Quatro livros franceses emprestados
E um estreito lençol de cor mui preta,
Onde enrosco os membros descarnados;

De mordedoras pulgas tropa infeta,
Percevejos cruéis, ratos malvados:
Aqui tendes o quarto de um poeta.



Comentário de Camilo Castelo Branco sobre Xavier da Cunha (1796-?), poeta português:

     Este poeta das margens do Vouga entra no templo de Apolo pelo cano de esgoto. Vivia sujamente: não outro merecimento além da bazófia e alarde da sua sordidez. No século passado, o poeta de oficio acanalhava-se, fazendo gala de pelintra. Era condição obrigatória para granjear a irrisória alcunha de poeta exibir os cotovelos coçados da casaca, as melenas hirsutas a esvurmar caspa, os dentes lurados e os gestos idiotas da alucinação extática.