sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

POEMA

DESCRIÇÃO DO QUARTO DO AUTOR
Xavier da Cunha



De escarros a parede matizada,
Sobre a mesa bastante papel velho,
Noutra parte sem aço antigo espelho
E um tinteiro que só vê tinta aguada;

Do teto imensa teia pendurada,
Duas cadeiras já sem aparelho,
Imundice que dá pelo joelho
E a pequena janela esburacada;

Quatro livros franceses emprestados
E um estreito lençol de cor mui preta,
Onde enrosco os membros descarnados;

De mordedoras pulgas tropa infeta,
Percevejos cruéis, ratos malvados:
Aqui tendes o quarto de um poeta.



Comentário de Camilo Castelo Branco sobre Xavier da Cunha (1796-?), poeta português:

     Este poeta das margens do Vouga entra no templo de Apolo pelo cano de esgoto. Vivia sujamente: não outro merecimento além da bazófia e alarde da sua sordidez. No século passado, o poeta de oficio acanalhava-se, fazendo gala de pelintra. Era condição obrigatória para granjear a irrisória alcunha de poeta exibir os cotovelos coçados da casaca, as melenas hirsutas a esvurmar caspa, os dentes lurados e os gestos idiotas da alucinação extática.

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